16.10.17

Tal filho, tal pai

Uma festa de anos é sempre útil para nos surpreendermos, outra vez, com a enorme semelhança entre filhos e pais. Não é nada difícil dispararmos o gatilho da genética quando fazemos estas observações, até porque as parecenças físicas são as mais evidentes. Mas aquilo que mais me fascina é o que não é devido à genética - ou que poderá não ser devido só à genética: o comportamento, os tiques de linguagem corporal, a facilidade ou dificuldade de interacção social, a segurança ou insegurança com que o mundo é encarado, et cetera. Levar um filho a uma festa de anos é quase como sair à rua nu, de mão dada com uma versão de nós próprios que não é ainda filtrada pela self-consciousness da idade adulta. Claro que os irmãos são muito diferentes entre si e que os pais também podem ser muito diferentes entre si, e que portanto mandaria a mais elementar prudência encarar com desconfiança esta ideia de causalidade, mas eu não consigo deixar de, primeiro, envergonhar-me e orgulhar-me de coisas que os meus filhos fazem em festas e, segundo, aproveitar o comportamento dos filhos dos outros para confirmar a ideia que tenho dos pais deles. E claro que é assim que se constroem famílias, afinidades e comunidades - e é assim que facilmente rancores resistem ao passar das gerações e que ódios antigos persistem no tempo. A facilidade com que cometemos a imprudência de gostar quando os nossos filhos se parecem connosco (um tema muito caro a este blogue) é indissociável da rapidez com que usamos os filhos dos outros para os julgar. Todos nós devíamos ser melhores do que isto.

12.10.17

É complicado


Depois de na semana passada relatar a história de uma família que decidiu educar a sua filha combatendo os estereótipos de género, o episódio desta semana do Hidden Brain volta ao assunto da identidade de género e ao interminável debate nurture vs. nature e como talvez o «vs.» esteja ali a mais. Resumindo, é complicado.

10.10.17

Carpinteiros vs. jardineiros

Não me tinha apercebido, até ontem, da extensão da preferência por carpinteiros face a jardineiros. O carpinteiro, como proposto pela Alison Gopnik, é aquele que trabalha por um resultado; já o jardineiro é aquele que trabalha por um processo. É desanimador ver tantos carpinteiros, tantos resultadistas, tantos que desconfiam da autonomia das crianças, tantos que tudo parecem querer sacrificar à disciplina, tantos que evocam ideias do passado que eu esperava que estivessem passadas. Talvez as outras pessoas tenham ideias muito diferentes das minhas para o tipo de adulto que querem que os seus filhos sejam. Foi uma reunião de pais reveladora.

9.10.17

Da empatia

Eu já fui criança e por isso não devia ser tão difícil o exercício da empatia em relação aos meus filhos, mas é. Às vezes é só isso que eles precisam, sentir que os pais estão a perceber aquilo por que eles estão a passar. E nós insistimos em não perceber, cometendo o erro de inverter a lógica, acusando-os (mentalmente) de não «fazerem um esforço» para perceber que têm de se vestir, calçar os sapatos, lavar os dentes, sentar-se à mesa, arrumar o quarto, et cetera. Não que não seja esse o nosso papel - a educação também passa pela aprendizagem destas pequenas rotinas - mas por vezes apercebo-me de que o esforço em falta é o meu. Isto é especialmente grave porque os meus filhos mais velhos têm ambos uma idade que eu me lembro de ter, e estão a passar por coisas que eu me lembro de passar. É comum lembrarmos que ser criança é uma coisa maravilhosa - mas também é comum esquecermo-nos de que ser criança é uma coisa aterradora, semelhante a habitar um universo paralelo povoado por criaturas fantásticas onde tudo pode acontecer. Talvez seja por isso que nós sejamos tão reticentes em mergulhar nas nossas memórias de infância e ajudar os nossos filhos a temer menos aquilo que não conhecem. É uma forma de egoísmo, mas espero que isso não me revele como um pai narcisista.

6.10.17

5.10.17

«Os Açores»

Ontem os meus filhos pediram-me para ir aos Açores. Não sei de onde tiraram essa ideia - do tio que esteve lá há pouco tempo? - mas disseram-no os dois cheios de convicção e vontade. O que será «os Açores» na sua imaginação? Falámos que era um conjunto de ilhas e que é possível viajar de barco entre algumas delas; que há baleias e golfinhos; que fica no meio do oceano e que faz parte de Portugal; que o voo é mais longo do que o voo para Lisboa. Eu já estive nos Açores e sei o que encontrar lá e sei que as nossas expectativas não são defraudadas, mas invejo-os por poderem ter dos Açores - e de qualquer outro sítio - uma ideia ainda fantástica totalmente moldada à criatividade da sua imaginação. Tanto quanto sei, os Açores podiam ser noutro planeta que o fascínio não seria maior.

4.10.17

O exemplo

O papel mais importante dos pais é ser o exemplo para os filhos. Mas aqui reside o problema: quando nós achamos que estamos a dar o exemplo, não estamos - estamos geralmente a doutrinar sobre um assunto qualquer que eles vão esquecer rapidamente; e quando achamos que eles estão distraídos e não estão a prestar atenção ao que estamos a fazer, estamos sempre a ser o exemplo.

Be the change

Um episódio do sempre recomendável Hidden Brain, de Shankar Vedantam, sobre as dificuldades que um casal americano encontrou quando decidiu educar a sua filha sem a muleta dos estereótipos de género. Eu já perdi esse comboio há muito tempo, embora seja uma ideia que me persiga. Mas reconheço a minha fraqueza: teria sido muito mais fácil (para mim) fazê-lo com uma rapariga do que com rapazes. Uma «maria-rapaz» não me causa qualquer estranheza, até porque «maria-rapaz» nunca foi um termo pejorativo; já o contrário é mais difícil de assimilar e de definir sem recorrer a preconceitos insultuosos, sempre com alusões à orientação sexual do rapaz, o que é especialmente grotesco. Eu gostava de ter tido a coragem que tiveram estes pais, de contribuir para demolir as expectativas que a sociedade deposita nos rapazes e nas raparigas, de maneira a que não fosse um problema o meu filho levar um casaco para escola, como hoje levou, com uma cor que não é aceite pelos seus colegas e que o torna alvo de piadas maldosas. E olhando para a experiência que tenho tido em educar dois rapazes é cada vez mais evidente para mim que a importância da sua natureza biológica para a definição da sua «identidade de género» é muito menor do que aquilo que eu estou preparado para admitir. A enorme inteligência das crianças demonstrada pelo trabalho da Alison Gopnik tem de servir para nos esclarecer sobre a sua capacidade de adaptação ao mundo que as rodeia: uma criança que é tratada, desde a nascença, como rapaz ou rapariga vai rapidamente começar a comportar-se como rapaz ou rapariga. E, mais uma vez, somos nós, os pais, que estragamos tudo ao projectar nos nossos filhos as nossas inseguranças sobre o que é ser «homem» ou ser «mulher», usando-os de uma maneira muito egoísta como hipótese de redenção dos nossos próprios falhanços.

3.10.17

Bonsai kitten

Ser a favor do planeamento familiar, isto é, promover a ideia de que cabe às famílias a decisão de quando e como ter filhos (por oposição a um modelo, quase sempre religioso, onde essa decisão fica dependente de outra, a de não usar meios contraceptivos), não significa não reconhecer o impacto que esse tipo de organização social e familiar tem na relação entre pais e filhos. E ele é - foi - tremendo. Essa decisão constituiu o pecado original da parentalidade moderna. As crianças deixaram de ser o resultado esperado e passivo de uma relação conjugal, para passar a ser um projecto fruto de uma decisão planeada. Cada filho passou, por isso, a carregar consigo o potencial de ser um sucesso ou um insucesso dos pais - individualmente e enquanto casal. Em vez dos pais serem a razão de ser dos filhos, foram os filhos que passaram a ser a razão de ser dos pais, o que é, compreensivelmente, uma tragédia. Não surpreende por isso que seja em sociedades onde o nascimento de bebés seja condicionado que esta relação esteja mais deturpada: a mãe-tigre chinesa, que sacrifica tudo em nome do desempenho académico dos filhos, um modelo de educação onde só o que produz resultados objectivos tem valor, onde a independência psicológica da criança é estilhaçada desde cedo para a conformar às guias laterais do trajecto definido pelos pais. Um modelo sinistro que gera adultos depressivos e ansiosos. O desafio do pai contemporâneo de classe média nas sociedades ocidentais é por isso o de conciliar estas duas forças à partida opostas: os filhos como decisão informada mas ao mesmo tempo isolados da ansiedade existencial dos pais.

2.10.17

Fail better

Educar é sobretudo - diria quase exclusivamente - ajudar as crianças a desenvolverem ferramentas e estratégias para lidar com a frustração.

Contacto

As pessoas que defendem a despenalização do aborto têm de partir do princípio de que quando se interrompe uma gravidez não se está a matar uma pessoa. Mesmo a maior parte das pessoas que combatem a despenalização do aborto são capazes de reconhecer que um feto com 10 ou 12 semanas não é uma pessoa, isto é, não é um ser humano autónomo da mãe. Sempre tive dificuldade em tentar definir o momento onde isso acontece - tive eu e tem toda a gente, daí o debate -, como se uma gravidez fosse uma variante do Paradoxo de Zenão. Contudo, nos países onde o aborto foi despenalizado a sociedade foi forçada a definir um consenso, geralmente às 12 semanas. Haverá argumentos científicos e biológicos para sustentar essa decisão, mas creio que é, no limite, uma decisão filosófica - e é, acima de tudo, uma decisão. Seja como for, estaremos todos de acordo que é algures durante a gravidez que essa autonomia acontece; que é durante a gravidez que o feto passa a criança capaz de sobreviver fora do útero (o avanço da ciência coloca hoje essa data à volta das 23 ou 24 semanas de gestação - embora estejamos a falar de uma sobrevivência fora do útero fortemente apoiada por meios artificiais de suporte de vida.) Isto são os factos biológicos. Mas o que se passa ao nível psicológico da formação de uma pessoa? A dependência do bebé do corpo da mãe não acaba no nascimento (embora, claro está, possa acabar), e muito menos a sua dependência psicológica. Com uma semana de vida um bebé não é ainda uma pessoa; com um mês de vida também não é. Com um ano de vida, já o será? E dois? E cinco? O que é, fora do contexto jurídico, uma pessoa? Tal como as 12 semanas do aborto ou as 23 semanas da sobrevivência extra-uterina, a idade do fim do processo de formação de uma pessoa é um número difícil de definir. Como saberemos que o processo acabou? Como saberemos que aquela pessoa já não depende de nós? Seja qual for a resposta cabe aos pais - cabe-me a mim - ter presente que a relação que se cria com os filhos é tão vital como o oxigénio que passa pelo cordão umbilical, e que a interrupção voluntária dessa relação pode ter consequências nefastas. Os pais são o primeiro ensaio de sociedade para uma criança; a primeira experiência do outro; o primeiro ensaio do amor; o primeiro contacto com a autoridade; a primeira fonte de conflito; a primeira experimentação da confiança e do respeito. A maneira como cada um de nós irá usar e moldar estes conceitos em adulto depende desse contacto fundamental. A maneira como os meus filhos irão avaliar o mundo será sempre radicada no meu comportamento agora. Metaforicamente o cordão umbilical não foi cortado - e não cabe aos pais cortá-lo. Cabe-lhes a eles.